12.2.07

Candeias: Malfalada ou esquecida, a Boca do Lixo está sumindo

"Boca do Lixo/Cinema – 31/12/76" é o último trabalho de Ozualdo "A Margem" Candeias, um dos cineastas mais representativos do cinema que se faz em São Paulo, isto é, na rua do Triunfo, e o único que, nos últimos dez anos, assumiu todos os riscos de fazer um cinema fora dos padrões normais em termos de produção e estética cinematográfica. Sobre esse filme, que deverá ser exibido brevemente como complemento nos cinemas, o cineasta se manifesta com modéstia:

– A coisa começou no fim do ano passado, quando todo pessoal aqui da Boca resolveu dar uma festa, que eu terminei coordenando, pois alguém tinha que se desincumbir disso. O negócio foi importante porque participaram distribuidoras, exibidores, produtores, atores, técnicos e, por fim, até a fauna local e muitos bicões. Levantou-se uma boa importância em dinheiro para garantir os comes-e-bebes e a turma foi se avolumando de tal forma que a rua precisou ser interditada. Compareceram policiais do DSV e foi montado um palanque no meio da rua. Aí eu resolvi começar a filmar, pois achei que aquilo tudo merecia uma reportagem. Usei pontas de filme, sobras e tudo que pudesse imprimir e o resultado aí está: um documentário que registra o maior encontro do pessoal de cinema, feito com as condições que surgiram no momento.


Tentando valorizar a arquitetura antiga (como nesta sua colagem)...

Com dez minutos de duração, o filme é uma espécie de "quem é quem" no cinema paulista, narrado em tom de ironia, pois seria ridículo realizar um documentário sobre o Lixão cinematográfico usando o tom convencional dos filmes oficiais. Daí a autenticidade do trabalho, que tem curiosidades desde já antológicas: o diretor Cláudio Cunha ("Snuff – Vítimas do Prazer") lutando capoeira com surpreendente agilidade; críticos de cinema, que muitos consideram "elitistas", perfeitamente misturados aos técnicos e figurantes de cinema; Borba Vita, presidente do Sindicato dos Exibidores, saindo da seriedade e caindo no samba.

A partir desse filme, a Boca do Lixo começou a "ganhar" força: elementos ligados aos sindicatos garantiam que, até o fim deste ano, a Emurb começaria a implantar um projeto para transformar a rua do triunfo em área de lazer, com calçadões e estrelinhas à maneira de uma Hollywood cabocla, com nomes de atrizes e atores espalhados pelo chão. Mas essa força logo se dissipou. Candeias tem uma explicação para isso:

– As autoridades não gostam do nome que o pedaço tem: eles acham que Boca do Lixo é um nome muito feio e, na certa, confundem a má fama do local com a outra má fama que o cinema tem, sei lá. E então o que se v~e o seguinte: ao invés de transformar a rua em área de lazer, as autoridades estão restringindo o que havia. Tiraram até o estacionamento que se tinha na rua do triunfo. Era proibido parar do lado direito. Agora é proibido também do lado esquerdo. E isso é um abuso, pois essa rua não tem tanto movimento assim: poderia ficar muito bem com o estacionamento de um lado, que não iria prejudicar o trânsito.

Embora a Boca do Lixo seja incontestavelmente a capital do cinema paulista, nunca foram tomadas medidas para preservar a área. Candeias cita um exemplo bastante expressivo:

– Recentemente eu fiz uma série de fotos da rua do Triunfo, mostrando os casarões antigos que existem por aqui. Mandei as fotos para um concurso do Museu da Imagem e do Som, chamado Patrimônio Histórico ou coisa assim e que agora está na estação São Bento do Metrô, se não me engano. Mas as minhas fotos nem sequer foram selecionadas, o que demonstra que ninguém se interessou pelo pelo que eu estava propondo e que é o seguinte: com base nessas fotos – que em termos de arquitetura mostram algumas obras-primas na rua do Triunfo, quer dizer, "no meio do lixo" – eu propunha o aproveitamento desses prédios antigos pelas repartições federais e estaduais. Isso serviria para concentrar os serviços de cinema num local só.

Um dos casarões antigos da rua do Triunfo foi parcialmente destruído há alguns meses e transformado em supermercado. Para Candeias, esse é o primeiro sinal de uma demolição geral, que brevemente poderá desfigurar a aparência do lugar. Mas ele acha que esse fato vem apenas confirmar uma tendência bastante antiga: as autoridades não dão apoio ao cinema nacional:

– A indústria de cinema anda completamente desprestigiada. Isso entre nós, pois nos Estados Unidos, pelo que andei lendo na revista "American Films" do mês de junho, o cinema americano conseguiu um incentivo fiscal através do projeto de um senador. Ora, poderia se dizer que eles já são bastante ricos e não precisam disso, mas nós que estamos lutando pela afirmação de nossa produção ainda temos que pagar impostos ao governo.

Apesar das dificuldades, injustiças e descasos que ameaçam a sobrevivência do cinema em são Paulo, Ozualdo Candeias continua desenvolvendo, embora precariamente, uma série de trabalhos paralelos à produção cinematográfica. Fotografou, nos últimos três anos, todos os cineastas que passaram pela Boca do Lixo: diretores, atores, atrizes, técnicos.

– Já andaram dizendo que eu fiz um almanaque de cinema e tudo o mais. Eu não sei se é almanaque ou enciclopédia. O fato é que reuni dados sobre quase todo pessoal de cinema, pedindo a cada um que me respondesse um questionário, o que não foi fácil, pois tem gente que não tinha a mínima idéia da coisa. Achavam que eu ia fazer sei lá o quê com a ficha deles, o que é bem típico aqui da Boca. Mas por outro lado tive um bom incentivo do pessoal que estuda cinema em escolas ou de jornalistas que gostaram da idéia, pois é uma espécie de almanaque que poderá servir de consulta, ou seja, o tipo de trabalho que deveria ser feito não por mim, mas pelos órgãos especializados do Ministério da Educação e outras entidades oficiais. Mas deixa isso pra lá. O fato é que a coisa já está em andamento: vai ser editado por Minami Keizi, da "Cinema em Close Up" e isso não pára aí, pois o mesmo editor já se interessou por um livro do Máximo Barro, chamado "A Primeira Sessão de cinema", sobre o cinema em São Paulo, e ainda um livro do Eduardo Llorente, com verbetes sobre o pessoal de cinema.

Considerado "o último dos marginais", ou um "marginal entre os marginais", Candeias já está com um roteiro pronto para seu próximo longa-metragem, que será realizado em branco e preto, contrariando os padrões vigentes, utilizando o mínimo de recursos e "fazendo das tripas coração".

– O pessoal que trabalha comigo já sabe que as minhas condições são precárias e, por isso, não esperam muita coisa. Os atores são principiantes e fazem um papel na medida em que se adaptem às exigências do personagem. O assunto é o mesmo dos outros filmes que fiz: marginalidade, profissões humildes, coisas que o homem fazia e agora é a mulher que vem fazendo, profissões não muito conhecidas. É a história de uma mulher que viviam com a família pobre no interior e descobre que as pessoas que andam de carro são bem nutridas. Então resolve vir para São Paulo. Uma grande parte da ação acontece em beira de estrada, um negócio que eu conheço bem e o filme terminará sendo uma espécie de documentação social. Devo começar a filmar nesses dias, mas por enquanto ainda não tem título. Isso é a última coisa que me preocupa.

Jairo Ferreira
(Folha de S. Paulo, 22 de julho de 1977)

1 Comments:

At 02:21, Anonymous Jorge said...

Acabo de realizar uma pesquisa de meses sobre a Rua do Triunfo, que publiquei em meu site http://www.piratininga.org , e só agora descubro este texto que prova mais uma vez como Ozualdo Candeias era um homem muito à frente de seu tempo. Em 1977, preocupava-se e lutava pela preservação do patrimônio histórico da Rua do Triunfo, luta que continua mais atual do que nunca em 2007.

Ele, nascido no interior, sem formação acadêmica, mostrava há trinta anos mais amor por esta cidade, e mais sensibilidade quanto à defesa de nossa memória e de nosso patrimônio arquitetônico do que muitos paulistanos, doutores, arquitetos, sumidades e autoridades de hoje em dia.

Parabéns por resgatar esse belo texto, tão revelador, e ao mesmo tempo tão melancólico por mostrar que nada mudou, pelo contrário, só piorou quanto ao descaso com a nossa memória de 30 anos para cá.

 

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