12.2.07

Candeias, opção do cinema independente

JAIRO FERREIRA

Desde que realizou "A Margem", em 1967, Ozualdo Candeias vem desempenhando – com uma coerência espantosa – o papel de medula e osso na geléia geral do cinema brasileiro. Numa época em que o Cinema Novo já demonstrava sintomas de saturação, ele deu novo impulso às condições de produção do cinema independente, essa mesma tendência salutar – autêntico símbolo de liberdade em todos os sentidos – que o atual movimento Cinemão vem procurando massacrar sistematicamente com suas medíocres "Damas do Lotação" e "Cortiços" execráveis. Toda uma coerência ameaçada agora com a apressada aprovação da Lei do Artista, que teria levado o cineasta a interromper as filmagens de "A Opção", título que adquire uma conotação irônica.


– O que aconteceu – explica Candeias – não foi bem isso.

A turminha gosta mesmo é de criar confusões e tem gente que não está entendendo nada. Antes de esclarecer essa questão, vou esclarecer uma outra: numa reportagem sobre o "Cinemão", publicada na "Folha" mesmo, denunciei a sabotagem que a Embrafilme faz a certos cineastas independentes, mas um deses cineastas veio me procurar e até quis brigar comigo, querendo provar que o filme dele deu dinheiro. Então dá a impressão que os pobres coitados estão prejudicados e não querem ser defendidos. No caso do meu filme "A Opção", não sei quem andou dizendo que eu tinha interrompido as filmagens por causa da Lei do Artista. Não é nada disso: parei de filmar simplesmente poprque o dinheiro acabou.

Como muita gente não entendeu o texto do projeto, circularam e ainda circulam uma série de boatos nos ambientes de cinema. Alguns dizem que determinado item do Projeto proíbe que a mesma pessoa faça mais de duas funções num filme. Assim, os cineastas que são ao mesmo tempo roteiristas, fotógrafos e montadores não poderiam mais continuar seus trabalhos, porque inclusive estariam tomando o lugar de outros. O boato, totalmente infundado, atingiu logo Candeias, o exemplo mais notório de homem-equipe em São Paulo: em "A Opção", como em "A Margem", ele faz tudo, desde o campo de filmagem até o estúdio de som.

– Claro que eu acompanho todo esse barulho em torno da Lei do Artista, mas logo percebi que não iria me afetar diretamente. O advogado do Sindicato de Diversões, agora já confundido com Sindicato dos Técnicos de Cinema, deu uma explicação até correta: o que a Lei não permite é que o sujeito acumule mais de duas funções concomitantemente. Isso quer dizer que, durante as filmagens, nada me impede de ser diretor e fotógrafo. Da mesma forma, durante a sonorização, posso dirigir a dublagem e dublar, se me interessar.

– O que eu acho interessante nessa Lei do Artista é que ela está desagradando a todos, aos produtores e aos técnicos. Eu não esperava que acontecesse o contrário, pois muita gente se ilude com o sucesso passageiro de alguns filmes do Cinemão e esquece que o cinema brasileiro ainda não é uma indústria no seu todo. A Lei vai bem para a televisão, que tem uma estrutura montada e para o pessoal de teatro. Para o cinema, a Lei não está com nada, precisa ser adaptada e tudo mais. Estão querendo passar o carro na frente dos bois. Eu acho que é dessa anarquia que existe aqui na Boca do Lixo que sai um bom técnico. Mas isso vai acabar, termina sendo uma repressão ao talento.

Quanto à "Opção", um filme em branco e preto numa época em que só se admitem filmes coloridos, Candeias não gosta de falar muito:

– Por enquanto tenho apenas uma meia hora de material filmado. É a história de uma mulher, ou melhor, várias, que vêm do Interior para tentar a vida na grande cidade. Elas são atraídas pelos carros, começam a ver que tudo é muito difícil, uma delas apela mesmo para a luta livre, uma forma de ganhar a vida como qualquer outra.

Tudo isto visto de uma ótica meio feminista. É um problema que eu conheço bem, coisas que vi na região sudoeste. São praticamente os mesmos personagens que já apareceram em outros filmes meus, gente humilde e sem perspectiva nenhuma. Desta vez eles terminam todos nivelados, dançando num forró.

Embora as filmagens estejam interrompidas, Candeias não demonstra grandes preocupações. Não é a primeira vez que ele interrompe um filme e vai trabalhar, como fotógrafo e iluminador ou mesmo ator, nos filmes de seus colegas da Boca do Lixo. Ele aprendeu a se adaptar sem se acomodar, e por exemplo, se os atores que aparecem de barba rala tiverem que voltar à cena de barba comprida, não tem problema nenhum: Candeias improvisa, modifica ligeiramente a história e tudo termina bem, porém de forma imprevisível. Aí então começa uma nova luta, a de tentar exibir o filme. Mas essa já é uma outra história.

(Folha de S. Paulo, 13 de junho de 1978)

5 Comments:

At 19:21, Blogger Sérgio Alpendre said...

parabéns, JT. ou, antes, valeu, por dividir essas leituras

 
At 11:46, Blogger Heinz said...

Ótima iniciativa! Excelentes textos!

 
At 12:12, Anonymous Matheus Trunk said...

Oi Juliano. Genial a idéia de criar um blog sobre o grande JAIRO FERREIRA. Estamos elaborando a Zingu! de março com um dossiê sobre o Candeias. Depois dê uma passada lá (www.revistazingu.blogspot.com). Estarei sempre por aqui ! Valeu !

 
At 20:05, Anonymous sergio andrade said...

Todo resgate da memória, ainda mais num país sem nenhuma, é bem-vindo. Principalmente em se tratando de textos desse grande crítico, Jairo Ferreira. Parabéns pela iniciativa!

 
At 23:32, Anonymous Márcio/BH said...

Bela iniciativa. Ótima oportunidade para conhecermos melhor a obra de Jairo Ferreira.

 

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