10.1.08

Brincando com um revólver de verdade

JAIRO FERREIRA

Sempre ouvi dizer maravilhas de Marco Ferreri, mas nunca pude constatar pessoalmente. Ele já fez mais de 30 filmes e, desses, nem 10 chegaram ao Brasil. Não sou entusiasta de seu filme mais famoso, "A Comilança", e só começo a descobrir o cineasta depois de ter assistido "Dillinger está Morto".

O título vem de uma manchete de Jornal antigo, encontrado por acaso por um cidadão (Michel Picolli) de bom nível social, sobre o qual pouco se fica sabendo durante o filme todo. Há um dialogo inicial entre ele e sua mulher e, em seguida, o homem começa a "não fazer nada'': anda de cá pra lá dentro de seu apartamento, liga a TV, ouve rádio, começa a preparar um jantar. Essa brincadeira, sem diálogos, é sustentada por uma narrativa apoiada exclusivamente na imagem. A câmera o acompanha inquietamente, mas quem tem que perscrutá-lo é o espectador, se é que conseguirá.

Estamos diante de um filme experimental, claro. Pensei logo em "Matou a Família e foi ao Cinema" (1969), de Júlio Bressane, também tirado de uma manchete de jornal. Ferreri não mata a família: mata a mulher e não vai ao cinema (já tinha feito uma sessão de cinema para ele mesmo), senão ao Taiti!


Se há 5 minutos de diálogo no filme é muito. Poderia ser mudo que nãofaria grande diferença. Curiosamente, a banda musical é composta de rotineiros programas de sucessos radiofônicos e, quando surge uma música extra, é brasileira. Há 3 ou 4 canções brasileiras durante o filme todo, sem créditos e não identificadas: a letra fala em "solidão" e "vou caminhando pelas ruas". Não sei se Bressane viu na Europa esse filme de Ferreri antes de filmar.

O que Ferreri quis dizer com esse filme?, perguntavam alguns espectadores após a projeção. Foi ai que pensei comigo: Ferreri não quis dizer nada, quis filmar e filmou muito bem. "Dizer" é palavra e o filme quase não a usa. A imagem, de resto, não "fala", expressa e tenho comigo que não importa o que Ferreri expressa, mas como expressa.

Trata-se de um filme sobre a mitologia do cinema. O "gangster" Dillinger aflora através de "flashes-backs" subjetivos. Tudo parece difícil, mas é fácil: com aquela carga de violência na memória, o personagem de Ferreri só poderá fazer bom uso do revólver que estava embrulhado no jornal em que leu a manchete que dá título ao filme. Piccoli brinca o tempo lodo com seu revólver de verdade, embora enferrujado. Bom cozinheiro desde então ("A Comilança" repete seu papel aqui em outra dimensão), pega o azeite caseiro e vai jogando nele as pecas da arma. Azeitar a arma durante 30 minutos é coisa de cineasta experimental: na verdade ele esta fazendo um guisado de revolver, azeitando as palas, desparafusando peça por peça. Como se isso não bastasse, tem o requinte de pintar o revólver com tinta vermelha e bolinhas brancas.




Depois de brincar com as imagens de mulheres que aparecem num filme que ele mesmo projeta para si, o personagem toma uma atitude já há muito (in)esperada: joga dois travesseiros em cima da mulher que dorme e dispara várias vezes. Como se nada fosse real, sai de manhã, pega o carro e vai dar um mergulho. Nisso está passando um navio, onde o cozinheiro morreu e é atirado ao fundo do mar, após breve "descanse em paz". Piccoli sobe no navio e candidata-se a ser o novo cozinheiro, após encontro com bela jovem de biquíni. Sua atitude final é perguntar: "Para onde vamos?". "Para o Taiti", respondeu o capitão. Na trilha sonora, volta a música brasileira: "caminhando pelas ruas", quando estamos em pleno oceano!

Não há conclusões a tirar, claro. O filme todo é aberto a múltiplas interpretações, pois o niilismo de Ferreri é total. Dá a impressão que, naquela viagem ao Taiti, ele poderá liquidar também a moça de biquíni. Mas o que acontecerá não importa, porque este é um filme em que o que acontece não tem importância nenhuma, se é que acontece alguma coisa. Cinema pode ser isso também: sonho que ninguém sonhou.

(Folha de S. Paulo, 28 de fevereiro de 1980)

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