20.1.08

Khourioso, cafônico, paleolítico

O cinema paulista continua desenvolvendo, ainda, a pior dramaturgia do País, transformando atores de carne e osso em estátuas caricatas na linhagem remanescente da velha e paleolítica Vera Cruz, esse fantasma que ressurge até mesmo nas pornochanchadas. "A Noite das Fêmeas" (em cartaz nos cines Olido e República) traz esse mofo dramático de uma forma talvez inconsciente, já que o diretor Fauze Mansur julga estar dando "um salto adiante". Ledo engano, diria aquele locutor de voz cavernosa, outra figura típica dessa tendência tétrica.

O filme é khouriano (ou melhor, "khourioso") a partir dos letreiros de apresentação: duas máscaras que lembram civilizações antigas e sombrios toques de um piano "cafônico", diluição do estilo "dodecafônico" que Rogério Duprat produzia para o Walter Hugo Khouri de dez anos atrás. "A vida imita a arte"? Mas desde quando Oscar Wilde é lido na Boca do Lixo? "Assim é se lhe parece"? Uma coisa é certa: se Fauze Mansur conhecesse a última frase, que é de Pirandello (1867-1936), antes que esta crítica fosse publicada, teria mandado o seu trucador colocá-la às pressas nesse filme pretensioso, ma irremediavelmente retrógrado, mas não atonal. Talvez, nesse caso, sobrasse a frase, já que sem ela sobra muito pouco.



Marlene: imitando o pior da vida

O erro de Fauze Mansur neste filme é o erro do "Movimento Boca do Lixo" de uma forma geral. São cineastas semi-analfabetos que querem se "intelectualizar". Fauze fez bons filmes ( "Sinal Vermelho", "A Noite do Desejo", "Sedução"), mas agora quis dar um salto maior do que a perna. Ele não sabia que era preciso muita cultura semiológica e metalinguística para mexer com realidade/ilusão, ator/personagem e outros babados. A culpa é também de Marcos Rey, o argumentista, responsável por algumas das piores coisas que tem surgido ultimamente. O resultado é esse: Jean Garret não se assume como um bárbaro sem cultura e entra bem com "Possuídas pelo Desejo"; Fauze Mansur não se assume como um classe média de linha árabe e quer chegar a ser um Khouri, mas usando um câmera que treme mais do que terremoto (Cláudio Portioli é bom apenas como fotógrafo e iluminador). Assim não dá!

Para demonstrar como o diretor não se assume: o título original é "Ensaio Geral", conforme se vê nos letreiros. Já não bastava encher os cartazes de gratuitas mulheres nuas? Não. Fauze Mansur ainda arrumou um título apelativo: "A Noite das Fêmeas". E isso tudo poderia ser esquecido se o filme tivesse fluência narrativa e humor, duas coisas fundamentais que ele não tem. A narrativa é pesada e consegue dar um blefe no espectador, pois oculta apenas um grande vazio.

O que adiantou esse grande elenco "all star"? O melhor é Carlos Bucka, que se salva por mérito pessoal, ajudado por seu porte físico de jovem Orson Welles. Os demais, como Marlene França são vítimas do clima de tensão que passou dos bastidores para a tela e ficou estampado em fisionomias contraídas: a arte imitou a vida no que ela tinha de pior. E o que parece que não havia na vida (leia-se ambiente de filmagem) é o que falta em quase tudo que se faz nesta Capital: humor. Há quem pense que humor é necessário só em comédias. Outro ledo engano. Se o filme pretendia ser um drama leve, resultou num dramalhão pesado.

Com todos os erros, "A Noite das Fêmeas" está fazendo grande sucesso de bilheteria: rendeu 27 mil cruzeiros no primeiro dia de exibição no cine Olido, contra 32 mil de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" no cine Ipiranga. O ruim imitou o pior.

Jairo Ferreira


(Folha de S. Paulo, 27 de novembro de 1976)

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