18.3.07

Audácia! – Um Filme Másculo

Os textos abaixo foram escritos para o folheto promocional do filme Audácia! Não são do Jairo (que foi co-roteirista do episódio do Carlão), mas relendo-os hoje, não vi um bom motivo para não publicá-los no blogue. Ao contrário. (JT)


Nosso cinema na boca de quem faz

Avenida Ipiranga, São Paulo, um dia qualquer. Três cineastas passam em frente ao cine Marco Pólo. Diante do cartaz de As Libertinas, ouço Carlos Reichenbach dizer para Roberto Santos:

– Veja, essa porcaria de filme nunca sai de cartaz. Já deu uma nota!

– É... As Libertinas e Macunaíma me perseguem. Sempre que passo em frente a um cinema, um dos dois está em cartaz.

Uma rua de Paris, exterior, dia. Jean-Luc Godard e Glauber Rocha conversam. Diz o francês:

– É preciso acabar com o cinema!

– Acabe você. No Brasil, agora é que estamos começando – o brasileiro responde.

O PASQUIM – Tem visto os últimos filmes brasileiros?

Oscarito – Tenho visto todos. E tenho gostado de todos.

De uma entrevista de Maurice Capovilla.

– É impressionante como esta gente (técnicos, atores) trabalhando assim (sem condições, ganhando pouco), tem garra. Toda a equipe se une, o filme passa a ser de todos. O maquinista faz com prazer uma instalação elétrica, sem dizer “esta não é minha função”. Todos fazem de tudo. Atores ajudam a carregar o material. Não havendo acomodações, como em O Profeta da Fome, todos dormimos no chão. É aí que nasce o estímulo, o filme se desprende, começamos a criar.

Frase de Roberto Santos, lema e símbolo da equipe de Audácia!

– O cineasta brasileiro é obrigado a transformar essa falta de condições em elemento de criação.

Rogério Sganzerla:

– Nosso cinema continua sendo uma das maiores barreiras contra o obscurantismo.

João Callegaro:

– Cinema cafajeste é o cinema que aproveita a tradição de 50 anos de “mau” cinema americano, devidamente absorvido pelo espectador e não se perde em pesquisas estetizantes, elocubrações intelectualizantes, típicas de uma analfabeta classe média.

Nas palavras desses sete, uma síntese da importância do filme brasileiro, para quem o faz, para quem o vê. Audácia! – um filme sobre cinema – teria que ser assim: irreverente, descontraído, mostrando o que se passa na frente e atrás das câmeras. Os nomes de alguns personagens (Paula Nelson, Ava Ava, Maria Vargas, Madame X) vieram de filmes muito amados. G. G. Dreher ganhou esse nome, por causa da bebida que quebrava o gelo das noites frias em que eu e Reichenbach armávamos a produção de Audácia!
Em Amor-69, minha história para Audácia!, muitas coisas que os personagens dizem não me pertencem. Acho normal um espectador pichar certos filmes brasileiros, por isso não hesitei: em alguns diálogos os atores elogiam filmes de Grande Otelo e até chanchadas da Atlântida. Continuo como autor da minha história, mas considero-a apenas uma reflexão sobre o cinema nacional.
Reichenbach procurou dizer certas coisas que pensa sobre o cinema brasileiro em geral:

– A badalação, o deslumbramento, o despojamento, a alta pichação, a coerência e o mau caráter, todos os adjetivos possíveis no cinema-novismo fazem de Audácia! um filme-verdade. Usei e abusei do que acontece num local de filmagem. Fiz um filme autobiográfico, enquanto o Lima deu mais atenção à mise-en-scène.

Agora, com vocês, Audácia!

Veja o que acontece quando alguém se dispõe a fazer um filme no Brasil. Veja o que acontece com a mocinha que quer um papel melhor no próximo filme de G. G. Dreher. Fique por dentro dessa e de outras situações que acontecem em certas áreas do cinema nacional.

Mas, por favor, quando recomendar Audácia!, engrosse a voz e tire as mãos da cintura. Não fica bem fazer certos gestos, quando se fala de um filme másculo!

PS-1 – Atenção, senhores projecionistas. Não cortem fotogramas das cenas mais eróticas. O filme vai correr o Brasil nos próximos cinco anos, precisa estar intacto até lá.

PS-2 – Senhores críticos: alguns defeitos de enquadramento, iluminação, dublagem, são intencionais. Fiquem certos de que não pretendemos fazer um filme perfeito. Isso é problema de cineastas estrangeiros, que têm gruas, trilhos, carrinhos e outros macetes que a indústria inventou, para encarecer a produção.

Antônio Lima

* *

Reichenbach fala sobre Paula Nelson

O Lima situou certa vez, que o que eu tentei fazer em meu episódio, foi realizar um filme confessional, mal-criado, mas contundente, onde eu falo através da boca dos meus personagens. O depoimento do que pretendi com A Badaladíssima & Os Picaretas, vai então, através de uma carta que eu poderia ter recebido, quando me encontrava na Guanabara, assinada pela minha personagem maior, porta-voz dos meus anseios.

Carlos, amigo:

Sei o que é a aflição com que vocês aguardam o certificado de boa qualidade, do filme com que você e o Lima, pretendem romper os laços paternalistas do vovô Cinema Novo. Não sei se o pessoal aí do Rio vai entender a importância de Audácia!, pois a chancela desgastada que o movimento deve ter criado na “inteligência” carioca, pode ter cegado os mais chegados a nós.

São Paulo continua dando um berro de independência. Aqui, cada vez mais aparecem filmes realmente únicos. Cada um está na sua, embora qualquer coisa, ainda inexplicável, ainda nos una pelas imagens. Dois filmes que já tive a oportunidade de ver, me estarreceram pela sua pujança revolucionária: Betty Bomba do Rogério, a subversão da imagem, e Gamal, o Delírio do Sexo, do Batista, a subversão do espetáculo. Estes caras, como diria você, foram os primeiros a decepar o fotograma de encomenda. O último Mojica, e o filme de Cappovilla, fizeram eclodir no cinema paulista, aquele cinema que preconizávamos; o verdadeiro descomplexamento. É o Brasil entrando no caminho do cinema de direção, através de Callegaro (O Pornógrafo), e Egbert (República da Traição). Nossos filmes estão sendo feitos na raça., assim como eu tento terminar meu Landru 70, cujo nome, pouco comercial, decidi mudar para Picaretas do Sexo, atendendo às exigências do meu produtor. Se resolvi ceder quanto a isso, foi unicamente para evitar que tivesse que incluir em minha obra cenas de sexanagem pura. Mudando o nome, não precisarei deturpar meu primeiro filme. Sei que você deve estar sorrindo, me chamando de purista fajuta, mas, você sabe muito bem que o negócio só irá pra frente, se nós diretores fizermos valer nossas exigências. Você, eu sei, não tem problema. Você e o Lima, se matam para produzir seus próprios filmes. Aí, eu concordo. Façam concessões até o (§£&) fazer bico. Sabe de uma coisa? Estou (§£&) montes. Cada vez mais, me contradigo. Este filme me deixa louca. Filmar é fazer sexo.

Ontem discuti com a Helena. Lembra-se dela? Lá da Última Hora. Aquela cineasta m potencial, que só sabe falar em Samuel Fuller. Quebramos um quilo de garrafas. O Banana-Macaco se machucou, o (§£&) à quatro. Hoje emergi na maior fossa do hemisfério, e não sei se filmo mais. Talvez gaste as três latas restantes, em panorâmicas circulares sobre a cidade. Ela me sufoca, mas não me vence. O pessoal me abandonou. Vou terminar meu filme sozinha. O meu assistente, muito badalador, qualquer dia me violenta em filmagem. Sabe de uma coisa? Estou com vontade. Minha família se nega a reconhecer minha independência. Esse negocio de família interferindo na vida da gente, não pega mais. Eu estou na minha. Eles não. Depois que larguei o Bill, aquele fazendeiro que andou me chifrando com uma atrizinha de (§£&), andei namorando com o Joseph, o ator que você lançou. Aprendi que este negocio de namorar com ator é o fim da picada. O cara é um chato que se pretende inserido. Que bolha! A única coisa que aprendi com ele, foi evitar aquelas picaretagens de botequim e festinhas badalativas.

Chega de falar de mim, poxa! Escreva-me sobre vocês. Como é, continua confiando no publico? Tenho certeza que ninguém vai negar a importância daquilo que vocês em ficção documentaram. A loucura de fazer filmes cada vez mais corajosos para o publico equatoriano. E os projetos futuros? Como é que vai o seu roteiro sobre as eminências pardas, o “Canastra Real”, não é assim que chama? E “A Grande Cachorrada”? Quando é que sai o musical do Lima? Pelo amor que você tem à sua madre, escreva-me logo. Estou desesperada. Traga a luz!

Paula Nelson, virgem mas progressista.
São Paulo, 3 de setembro de 1969.

Uma semana depois, Paula sofria um sério acidente, não podendo concluir sua obra. Por ela e por tantos outros, prometo continuar a fazer filmes doentios, até que um assistente se decida a me empurrar do 13o andar de um edifício.

Carlos Oscar Reichenbach Filho

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