31.5.07

Almeida Salles, presidente da amizade

JAIRO FERREIRA

O que ele já escreveu, desde os anos 20, nunca esteve em livros, embora seja primoroso, lapidar. Sua obra, em matéria de criticas e ensaios cinematográficos, daria pelo menos 4 substanciosos volumes. E mais dois de ensaios sobre literatura e poesia. Mas só hoje, às 17 horas, no Bar do Museu (av. Ipiranga. 324), ele lança seu primeiro livro. "Espelho da Sedução".

O homem é grande e se impõe pela presença de idéias, voz grave, firme, da melhor eloqüência, culta, ao mesmo tempo efetiva e afetiva. Costumam dizer que ele é o "papa da crítica de cinema", "um monumento vivo", "o amigo da amizade", mas é uma de suas máximas que dá a sua dimensão vivencial, antes de cultural: "Cultura não é o que se lê, mas o que fica, através de sua vivência".


Quem é ele? Quem é a grande eminência parda da cultura paulista e brasileira? É o "presidente", como o chamam carinhosamente: Francisco Luis de Almeida Salles. Presidente porque, desde os anos 40. sempre preside algum importante órgão de cultura (Clube de Cinema de São Paulo, Filmoteca do Museu de Arte Moderna, Fundação Cinemateca Brasileira, Comissão Estadual de Cinema da Secretaria Municipal de Educação e Cultura).

Almeida Salles é também presidente do bar mais cultural de São Paulo e talvez do Brasil: o Bar do Museu. Não é exagero dizer que a vida cultural da cidade deve muito a esse bar, que funcionava no prédio antigo do Museu de Arte de São Paulo, na rua 7 de Abril, e agora na av. Ipiranga. Aí se reúne diariamente, no fim da tarde, a fina flor da intelectualidade. Aí se discute tudo: tudo o que seja arte. Só poderia ser nesse bar o lançamento do livro do presidente. E o mais curioso é que se trata de um livro de poesias.

"Um caso raro em que o autor publica um livro sem ter os originais. São poesias dedicadas aos amigos, de 1935 até hoje. Poesia feita em guardanapo, em bares e restaurantes. Um livro de louvação: só louvação. Meu editor, Marcos Antônio Marcondes, teve o trabalho de arrecadar os poemas, que estavam com as pessoas a quem foram dedicados. Chamo isso de exercício da amizade. Como diz Ortega e Gasset, eu sou eu mais a minha circunstância. Por isso, entre as epígrafes. lembro Platão de "Lysias ou Da Amizade": Então eu disse: Não quero ouvir teus cânticos nem teus versos, ó Hippothales, se é que os fizeste para algum jovem amigo teu."

A titulo de explicação, Almeida Salles abre o livro: "Os textos aqui reunidos nunca foram destinados à publicação." O título, "Espelho da Sedução", foi recolhido de um samba-enredo de Silas de Oliveira e J. Harindo, "Meu Drama". Eis um poema dedicado ao ator José Lewgoy/1974: "Há alguém que viaja/na letra, na pauta, no círculo,/há alguém que cruza espaços/foge nos trens, respira os ventos/do acalento/há alguém que encarna/e desencarna, no tempo artístico/e fala e ouve/reconhecendo a letra do poema/e banhando-se na tinta/da pintura."

Homem de muitas atividades, não só na área das artes, Almeida é também assessor do governo do Estado e procurador (aposentado) do Estado, conselheiro da Fundação e conselheiro do Museu da Imagem e do Som. Ontem mesmo, antes de sua rápida entrevista à imprensa no Bar do Museu, acabava de chegar de uma histórica reunião no MIS, cm que a presidência da Fundação Cinemateca, então a cargo do escritor Antônio Cândido, passou para as mãos da escritora Lígia Fagundes Telles, viúva de Paulo Emílio Salles Gomes, notório titular da entidade e grande perda da década.

Numa rápida síntese de sua vida, preparada por seu editor Marcos Marcondes, consta que, em 1932, com 20 anos, Almeida fugiu de casa para se inscrever num batalhão da revolução paulista, contra Getúlio Vargas. Os pais tentaram tirá-lo de uma escola da Lapa, transformada em quartel. Ele chorou e ficou. Em Eleutério, fronteira de Minas Gerais, quase morreu numa patrulha. Salvou-o o cabo Mauro Pereira de Almeida, hoje o seu mais antigo amigo, inclusive porque a maioria dos louvados no livro já morreram. Na retirada, em Itapira, recebeu um tiro na perna, amenizado porque atravessou, primeiro, o seu cantil.

Cultivador da amizade, como se fosse uma vocação, Almeida conta que quem primeiro lhe revelou os tomistas foi Roland Corbisier, que depois lhe falou em Bergson. E segue-se uma espécie de manifesto da amizade e da cultura, onde Almeida fala de quem lhe apresentou quem: "Lauro Escorel, Maquiavel; Paulo Edmundo de Souza Queiroz, César, Nietzsche e Stendhal; Vicente Ferreira da Silva, Kierkegaard, Hegel e Heidegger; Mário Vieira de Melo, Dostoiewsky; Octávio de Faria, César e Maquiavel; Geraldo Melo Mourão, a grande meditação clássica e a captação da América; Efraim Tomas Bó, a ética da cultura transformada em ação no tempo; Delmiro Gonçalves, a recusa à concessão e a exigência na participação; Luiz Lopes Coelho, a alegria criadora da vida; Vinícius de Moraes, o entendimento com a circunstância e a sabedoria na fruição do mundo; Paulo Emílio Salles Gomes, a fidelidade fervorosa e o repúdio à mistificação (...)".

(Folha de S. Paulo, 20 de dezembro de 1979)

1 Comments:

At 10:19, Anonymous Anônimo said...

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