25.5.07

Um sanguinário depoimento filmado


"Caminhos Perigosos" (em cartaz nos cines Belas Artes, Centro e Top Cine) é certamente o filme mais pessoal de Martin Scorcese, que passou boa parte de sua vida na chamada "Pequena Itália", em Nova York, perambulando inclusive por sua ala mais sórdida. Este é também seu filme mais rebarbativo, um anti-espetáculo que agride frontalmente a "boa fórmula estética" de "O Poderoso Chefão". Uma espécie de reverso da medalha, onde o chefão é substituído pelo chefinho, rodeado de figuras menores envolvidas no misterioso processo mafioso.

O fio condutor é propositalmente difuso, mal delineado. O núcleo central é um grupo de jovens entre 20 e 30 anos, todos procurando defender a pele com expedientes marginais, desde o tráfico de drogas até a cobrança de juros. O diretor Scorcese é um cinéfilo inveterado e faz desses personagens os "anti-Vitelloni", citando Fellini num contexto totalmente anti-poético.

O que dá substância ao filme é a ambientação: bares de quinta categoria, becos escuros, mesas de sinuca. K é em torno de uma dessas mesas que está a melhor sequência do filme: um sensacional "travelling" que vai acompanhando uma briga de empurra-empurra, onde quem mais empurra é mesmo a câmera, feita com nervosismo, mas também com muita segurança.

Martin Scorcese aproveita Inclusive para satirizar a violência. Seus personagens brigam o tempo todo, sempre por mesquinharias. Um deles (De Niro) dá um verdadeiro show de agressão, desafiando um Inimigo com um revólver que nem estava carregado, como se vê depois. E as pequenas brigas parecem ir se somando para eclodir em violência sanguinária, o que só acontece na sequência final, quando os "anti-Vitelloni" são surpreendidos numa perseguição de automóvel. A cena termina com o abalroamento de um hidrante, nítida alusão a "Perseguição Implacável" de Don Siegel.

O personagem de Robert De Niro em "Taxi Drlver" é apenas uma figura menor neste "Caminhos Perigosos", vivido por Harvey Keitel, um devedor que não quer pagar sua dívida, ex-combatente na guerra do Vietnã. Esse personagem seria ampliado em "Taxi Driver", uma ficção com caráter documental, enquanto este se impõe mais como depoimento, o que justifica a sua improvisação.

J. F.

(Folha de S. Paulo, 7 de fevereiro de 1977)

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