30.5.07

A autocrítica de um charlatão


JAIRO FERREIRA

Já está fazendo oito anos que Orson Welles começou a filmar "O Outro lado do Vento" e o filme até agora ainda não está pronto. Durante uma filmagem, nos desertos do Arizona, o câmera ligou subitamente os refletores e perguntou-lhe o que ele queria, ao que Welles gritou: "Seu idiota! Não está vendo que eu não tenho a menor idéia do que quero?"

O fato de Welles não ter concluído muitos de seus filmes tem sido objeto de especulações as mais extravagantes por parte da crítica mundial. O cineasta, um tremendo gozador, deve morrer de rir lendo tais matérias. Um dos alvos prediletos de seu humor é a critica norte-americana Pauline Kael. Susan Strasberg, que trabalhou com Welles em "O Outro Lado do Vento", lembra a esse propósito um outro episódio memorável:

"Fazíamos uma cena com um ônibus. A certa altura, o câmera não conseguia retirar do quadro um sinal vermelho com uma cruz. Alguém disse: "Vamos tirar aquele sinal, não se encaixa na história". Mas Orson respondeu: "Não, deixem-no aí. Pauline Kael escreverá parágrafos inteiros sobre o simbolismo dessa cruz vermelha".

"O Outro Lado do Vento" é pura metacinema. Financiado com dinheiro iraniano, francês e alemão, gira em torno de um diretor de cinema chamado Jake Hannaford, um macho feroz, misto de Ernest Hemingway e John Ford. Hannaford, interpretado por John Huston, retorna de um exílio europeu para fazer um filme em Hollywood, que mostrará que ele pode ser tão avançado como qualquer diretor de lá. Mas aos poucos é denunciado como um homossexual reprimido, cuja incapacidade de se manifestar sexualmente o leva a um suicídio retumbante. "John Huston – diz Welles – faz uma das grandes interpretações que já vi na tela. Quando eu for para o céu, se me deixarem entrar, será porque dei a John Huston o melhor papel que eu mesmo podia ter interpretado. Ele é melhor do que eu teria sido – e eu teria sido sensacional!".

Estou citando alguns episódios a propósito deste último inacabado filme de Welles porque ele se liga muito ao anterior, "Verdades e Mentiras" ("F for Fake", 1973/75), que está em cartaz no Liberty e que nenhum espectador que goste de cinema deve deixar de ver uma, duas, várias vezes. Em "O Outro Lado do Vento", Welles dá autênticas bofetadas em muitas pessoas com as quais ele entrou em conflito nos últimos anos. Uma dessas pessoas é Robert Evans, ex-chefe da Paramount que se recusou a distribuir "F For Fake".

Não se pode, porém, passar o carro na frente dos bois. "Verdades e Mentiras" é essencialmente um filme autocrítico, mas anterior ao "Outro lado do Vento". Daí ser evidente que ele poderá ser ainda melhor do que "F For Fake", pois este faz uma autocrítica claramente parcial, que não atinge os filmes inacabados ("It's All True"/1942, "Don Quixote" 1959/71, '"Dead Reckoming" 67/70). "It's All True", como se sabe, teve seqüências rodadas no Brasil, e já demonstrava as preocupações do cineasta com a verdade, como se "Cidadão Kane" (1941) já não tivesse levado isso às últimas conseqüências. A melhor tradução para "It's All True" não seria ''Toda a Verdade", mas "Isto é Tudo Mentira". Seria mentira, inclusive, que Welles tenha sido culpado da morte de um dos elementos da equipe numa cena de barco no Rio de Janeiro.

O grande charlatão do cinema mundial deve ser deglutido tropicalmente. Para isso nada melhor do que uma frase de Rogério Sganzerla, publicada há 11 anos, sobre José Mojica Marins, o popular Zé do Caixão, mas que se aplica perfeitamente ao Welles de "F For Fake", talvez devido a identificação entre gênios: "O natural é tão falso como o falso. Só o arquifalso é realmente real". Substitua-se o "real" por "verdadeiro" e já se verá que não é outra a problemática do filme de Welles: as relações entre a verdade e a mentira, o legítimo e o falso, a vida e a morte.

Como diz o poeta Cláudio Willer, "Não há nada mais criativo do que o acaso objetivo". Ora, foi por um mero "acaso objetivo" que Welles realizou "F For Fake". O diretor francês François Reichenbach, que é parente cinematográfico do brasileiro Carlos Reichenbach, já tinha milhares de metros de filme rodado sobre o falsário húngaro Elmyr de Hory quando Welles surgiu na parada. Está claro que ele não só aceitou a proposta do francês, como também o engambelou de vez, ofuscando-o e reduzindo-o de diretor a entrevistador/ator. Welles começou por fazer tão grande anarquia com o material na sala de montagem que, de cara, resolveu narrar o filme a partir da própria moviola ("É mais cômodo", teria afirmado). Assim, desse ponto fixo, uma referência metacinematográfica, nasce um turbilhão de movimentos, o documentário mais agitado sobre o objeto mais fixo (pinturas), uma atualização da máxima mallarmaica ( "Da forma nasce a ideia"). Trata-se, sem dúvida, do documentário menos chato já feito em qualquer época, se movimentação for tomada como oposto de ''fixação em torno da idéia da verdade", o que colocaria a nocaute a ingenuidade do mentiroso "Cinema Verdade". Um fenômeno que, por sinal, escandalizava o falecido Roberto Rossellini, que dizia: "Muitos filmes ditos de autor são, agora, puros exercícios formais, esquizofrenicamente pessoais".

Esquizofrênicos e também megalômanos são os artistas que entram como "conteúdo" do filme: Sicasso, Matisse, Clifford Irving, Howard Hughes, Oja Kodar, o grande falsário Elmyr de Hory e, principalmente Orson Welles. Um esquizofrênico, quando fala de outro, usa isso como mero pretexto para falar de si mesmo. No Brasil, Glauber Rocha fez isso através de Di Cavalcanti, no documentário "Ninguém Assistiu ao Formidável Enterro de sua Última Quimera, Somente a Ingratidão, Essa Pantera, Foi sua Companheira Inseparável" e Rogério Sganzerla através de José Mojica Marins em "O Abismo ou Sois Todos de Mu".

O genial Elmyr de Hory, que teve uma vida marginal e inclusive terminou se suicidando em 1976, falsificava à perfeição quadros de Modligliani, Marquet, Derain, etc; Clifford Irvimg falsificou a biografia do milionário Howard Hughes; a bela Oja Kodar, "modelo" de Picasso, tem uma boa frase sobre a crítica que Welles deve endossar: "A critica é uma... (impublicável)"; e o próprio Welles falsifica o que? A melhor seqüência do filme é certamente a que ele dedica a si mesmo, relembrando que, aos 16 anos, apresentou-se em Dublin, como famoso ator da Broadway, embora nunca tivesse pisado num palco; e, 1938, causou pânico com sua transmissão radiofônica da "Guerra dos Mundos", de H. G. Wells, fazendo crer que os marcianos tinham invadido Nova York: vai por aí afora. "Cidadão Kane" (1941) é uma belíssima mistificação. Uma trajetória perfeita, de 1941 a 1958 ("A Marca da Maldade"), período inicial em que Welles ficou conhecido como gênio, mas também narcisista, mau caráter, individualista, arrogante, megalômano. Agora com "F For Fake", Welles assume, de certa forma, tudo isso. "Sou um falsário", confessa.

"A arte é uma mentira", dizia Picasso. "Uma mentira que nos faz compreender a verdade", acrescenta Welles. ''Todo mágico é um ator", dizia o mágico Houdini, com quem o cineasta diz ter tomado aulas de magia branca aos 11 anos (acredite quem quiser, é claro). Welles faz algumas mágicas com moedas e chaves no filme, mas isso não convence. A verdadeira mágica do filme é sua montagem esquizofrênica (no bom sentido), fragmentando e explodindo a narrativa.

Nesta sua autocrítica, Welles torna-se inclusive "humilde", o que pode parecer absurdo num cabotino como ele. Isso pode ser atestado na seqüência em que o cineasta faz reflexões diante da catedral de Chartres, obra prima de autor desconhecido: "Talvez a assinatura de um homem não tenha tanta importância". A sua assinatura, porém, é o que dá importância a este filme instigante, belo como a morte: "A única verdade é a morte", acrescenta Welles. Mas ninguém deve levar nada disso muito a sério, pois no início do filme, Welles promete que vai dizer toda a verdade sobre falsificações, mas ao final interrompe para dar um recado perturbador: "Há 17 minutos que só estou falando mentiras".

Em suma: o cinema mundial estava em crise de criatividade desde que Orson Welles e Jean Luc Godard deixaram de apresentar seus filmes com a freqüência que se fazia necessária. Welles retorna com a forca de um furacão neste "Verdades e mentiras", um filme dificilmente superável neste ano de vacas magras. Resta esperar agora o ressurgimento de Godard.

(Folha de S. Paulo, 26 de abril de 1978)

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