17.5.07

Uma nova imagem de Zé do Caixão

JAIRO FERREIRA

"Quem sou eu, não interessa, como também não interessa quem é você, ou melhor, não interessa quem somos. Na realidade o que importa é saber o que somos. Não se dê ao trabalho de pensar porque a conclusão seria: a loucura. O final de tudo, para o início de nada".

Os espectadores que gostam dos filmes José Mojica Marins já sabem que essa é a filosofia básica de Zé do Caixão, enunciada em seus dois primeiros e melhores filmes: "À Meia Noite Levarei Sua Alma" (1964) e "À Meia Noite Encarnarei no Teu Cadáver" *(1967). Esses filmes, na verdade, integram uma trilogia juntamente com "Ritual dos Sádicos" (1968), talvez melhor ainda do que os dois primeiros, mas lamentavelmente ainda não liberado pela Censura.

A grande novidade, para os aficcionados do terror brasileiro, que só poderia ser mesmo um terror debochado para se manter autêntico, é que há um novo filme na praça: "O Universo de Mojica Marins", documentário de 30 minutos sobre o criador Mojica Marins e sua criatura, Zé do Caixão. O diretor chama-se Ivan Cardoso, que veio de uma grande experiência em cinema Super-8, depois de realizar algumas curtas e médias metragens que marcaram época na produção experimental. Seu gosto pelo horror já se manifestava desde que realizou o elogiado – e pouco visto – "Nosferatu no Brasil" (1972), cujo papel central é interpretado pelo compositor e poeta Torquato Neto (que infelizmente suicidou-se um ano depois).

Atualmente está em moda o chamado "cinema de homenagem", mas é bom deixar logo claro que o filme de Ivan Cardoso está fora desses esquemas de consumo rápido e rasteiro, embora seu objetivo seja atingir o grande público. Trata-se de um documentário realmente fora de série, inclusive porque a homenagem não soa falsamente badalativa, mas altamente criativa, revelando aspectos inusitados da personalidade do cineasta.

Assim que a primeira cópia do filme ficou pronta, o carioca Ivan Cardoso veio para São Paulo e convidou alguns amigos para uma sessão especial: os poetas Angusto e Haroldo Campos e Décio Pignatari, o crítico Mário Schoenbrrg, o ensaísta Jean-Claude Bernardet,. o cantor Walter Franco, o próprio Mojica Marins, claro, sua equipe habitual que tem figuras fantásticas (caso de seu assistente, "Satã") e – antes que me esqueça – eu.


Antes de maiores comentários sobre "O Universo de Mojica Marins", que aliás está participando da mostra oficial do Festival de Brasília, que começa hoje, é necessário fazer um rápido retrospecto na trajetória de Ivan Cardoso, pois seus trabalhos em Super 8 estão profundamente ligados ao terror brasileiro, aqui já identificado de vez com Zé do Caixão. Recomenda-se prestar muita atenção nos títulos dos filmes: "Sentença de Deus", primeiro Super 8 de Ivan Cardoso, tem exatamente o mesmo título do segundo filme de José Mojica Marins (feito em 1959). Quem melhor soube detectar essas "coincidências propositais" e esses "acasos objetivos"? O poeta Haroldo de Campos, claro, em matéria publicada
no extinto "Correio da Manhã" (14/8/72), cujo título é altamente inventivo: "Ivampirismo: o cinema em pânico".

"Quando muitos estavam pensando no monumental e no bolo de noiva, no pomposo e no demagógico-ornamental, no "festival" e não no festim, chegou o Ivan Cardoso de Super 8 na mão, e partiu para a deglutição canibal do cinema. Não em problema de ontologia, mas uma questão preliminar de odontologia, como diria Oswald de Andrade.

"E veio Nosferatu no Brasil, ou mais exatamente Nós-Torquato no Brasil. Com Torquato Neto no papel título, atacando de vampiro, um vampiro ensolarado, malandro e desinibido, tropicalizado em cores berrantes, para inveja de seus cinzentos colegas dos castelos de Cárpatos. Numa féerie fie suco de tomate, o vampiro – um vampírico (vampiro empírico) – vai levando a dente carótidas e outros vasos, num aprendizado por contato direto, vampirizando a torto e a direito, onde e como pode, operando com os meios da circunstância, e logo cercado por um séquito badalante de recém-conversos vampiros de barba e vampiretes de biquíni: os e as ivamps".

A camera Super 8, como se sabe, está agora na mão de todos, custa o mesmo preço de máquina fotográfica. Porém, daí só saíram dois ou três grandes cineastas no Brasil. Ivan Cardoso foi o primeiro deles. Em 72 ele dizia:

"O curta metragem é o primeiro passo para quem quer transar cinema no Brasil. É o primeiro passo para que um cineasta se torne um autor de "leitos mentais". Ou seja: para conseguir os certificados de "boa qualidade"/censura, ingresso nos festivais etc. Será melhor que o sujeito se torne um "fabricante de colchões", Nessa canoa não entramos: pulamos para o outro lado: para a criação visionária: para um trabalho radical e irreversível: para o cinema mudo: para uma série Super 8: Quotidianas Kodak. Em um ano os resultados do nosso trabalho estão aí: Piratas do Sexo Voltam a Matar, Amor e Tara, Nosferato no Brasil, Sentença de Deus: prontos. Os dois últimos longas-metragens em acabamento: After/Midnight e estamos filmando Dominó Negro: A Múmia Volta a Atacar! Cada um me custou 600, e 800 cruzeiros. O último é que está saindo mais caro. Tenho gasto muito nas faixas para embalsamar a "múmia".


A tese de que o cinema Experimental (também chamado Udigrudi) é imenso reservatório de criatividade, que inexoravelmente vai sendo absorvida pelo cinema de grande público, ganha total consistência no caso de "O Universo de Mojica Marins". Este documentário de Ivan Cardoso, feito também para aproveitar a Lei que obriga a exibição de curtas metragens junto a filmes estrangeiros, começa da mesma forma que "À Meia Noite Encarnarei no Teu Cadáver":

"A coragem inicia onde o medo termina. O medo inicia onde a coragem termina. Mas será que existem a coragem e o medo? Coragem do que? Medo do que? De tudo? O que é tudo? Do nada? O que é nada? A existência, o que é existência? A morte? O que é morte? Não seria a morte o inicio da vida? Ou seria a vida o inicio da morte? Você não viu nada e quer ver tudo. Você viu tudo, mas não viu nada. Teme o que desconhece e enfrenta o que conhece. Por que teme o que desconhece e enfrenta o que conhece? Sua mente confusa não sabe o que procura. Porque o que procura confunde a sua mente: E nasce o terror. O terror da morte. O terror da dor. O terror do fantasma. O terror do outro mundo. Agora vê no terror que nada é terror, não existe o terror. No entanto, o terror o aprisiona. O que é o terror? Ah! Não aceita o terror porque o terror é você".

Esta é a filosofia completa de Zé do Caixão, acompanhada de imagens com nuvens tenebrosas que passam pela figura sinistra do Zé do Caixão, agente funerário, o melhor personagem já criado pelo cinema brasileiro nesses 81 anos de sua existência. "Zé do Caixão é o Antônio Conselheiro do cinema", afirmou o poeta Décio Pignatari, enquanto o poeta Augusto de Campos falava em "camelô metafísico", a propósito dessa filosofia cabocla que deflagrou a irracionalidade brasileira, revelando uma face até então oculta do homem brasileiro, influenciando todo o Cinema Experimental, de Rogério Sganzerla e Eliseu Visconti ("Os Monstros de Babaloo").

Há uma seqüência no documentário de Ivan Cardoso que foi muito elogiada. Na pré-estréia de "Inferno Carnal", um dos últimos filmes de Mojica Marins, Ivan Cardoso lá estava de câmera na mão, seguindo o cineasta desde que ele chega num carro preto até a entrada do cine Olido. Mojica, com sua capa preta, cartola e tudo o mais, acompanhado de seu assistente, "Satã". Décio Pignatari não resistiu e fez uma comparação: "Zé do Caixão está parecendo exatamente Mandrake, enquanto seu assistente Satã, careca e tudo, lembra mesmo Lothar e o incrível de tudo isso e que eles estão inventando sem saber quem foi Lee Falk". Acrescente-se ainda cenas pitorescas em que Roberto Carlos aparece sendo hipnotizado por Mojica Marins (o filme aliás termina com ele cantando "E que Tudo Mais Vá Pro Inferno").

Uma boa parte do texto do filme é inclusive de Décio Pignatari, narrada por um locutor com um tom de voz, algo radiofônico, dizendo mais ou menos o seguinte: "Na época das viagens espaciais, o choque de um bárbaro, um primitivo, contra a tecnologia elétrica". Mas a mais surpreendente de todas as seqüências talvez seja a do depoimento de Mojica Marins, onde ele explica como teve a idéia de criar o personagem Zé do Caixão. Ele começa falando normalmente, mas aos pouco vai entrando numa espécie de transe, uma viagem mental, tentativa de mergulhar em seu próprio inconsciente e fornecer ao público uma idéia aproximada do que seja um pesadelo, pois Zé do Caixão nasceu de um pesadelo.

Ivan Cardoso teve o cuidado de evitar qualquer sensacionalismo, não inserindo no filme as famosas cenas eróticas de Zé do Caixão. "Preferi revelar o lado familiar de Mojica Marins, que nunca deixou de visitar a sua mãe e acho sensacional quando ela diz que seu filho não é o perverso Zé do Caixão, mas um homem chamado José Mojica Marins. Essa foi a forma que eu encontrei para fazer a minha homenagem sincera e carinhosa ao grande cineasta brasileiro, um dos poucos que estão tendo a honra de serem homenageados em vida".

* o título correto é "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver".

(Folha de S. Paulo, 24 de julho de 1978)

2 Comments:

At 20:34, Anonymous Anônimo said...

Du caralho (du cinema).Adorei a foto do JEAN-CLAUDE BERNARDET com MOJICA, queria uma dos dois mais o JAIRO, Hehehehe!!!!

 
At 16:14, Anonymous frederico.osanan@bol.com.br said...

Brother, como consigo os filmes do Ivan Cardoso. Sou fascinado por "cinema de invenção, "cinema marginal"...

 

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