8.5.07

Manifesto de um cineasta visionário


JAIRO FERREIRA

Quando estreou na direção, com 23 anos de idade, realizando o apocalíptico e já antológico "O Bandido da Luz Vermelha" (1968), Rogério Sganzerla soltou um manifesto que começava assim:"Meu filme é um faroeste sobre o Terceiro Mundo, isto e, fusão e mixagem de vários gêneros. Então fiz um filme-soma; um far west mas também musical, documentário, policial, comédia ou chanchada e ficção científica". Esse manifesto ficaria famoso na crônica cinematográfica brasileira, não sendo superado por nenhuma critica (embora algumas sejam realmente muito boas) publicada sobre o filme até hoje.

O novo manifesto de Sganzerla, escrito em função de seu último filme "O Abismu" (que deverá ser exibido durante o Festival de Brasília que terá inicio na próxima segunda-feira, dentro da mostra intitulada "O Horror Nacional"), intitula-se "Voltando à Tona". Explica porque o cineasta preferiu ficar submerso durante sete anos. já que abandonou o cinema em 1971, e é ainda mais provocante do que o de 1968:

– Após sete anos de submersão, eis-me voltando à tona (com muita honra) nesse tonel sem glória que é o cinema brasileiro. Submersão não significa submissão – ao contrário, imerso nas profundezas da mente livre pude pesquisar uma cultura soterrada e descobrir o que está na cara e poucos têm coragem de constatar: Brasil, país do passado – de grande e imemorial passado – eu sei de tudo e escondo, sabiam?

– De 1970 para cá – desde que saí dele – nosso cinema perdeu quase todo interesse e originalidade (com dignas, esparsas exceções), não sei se por coincidência ou não... Ou por outra, pude refletir sobre esse personagem que por acaso sou eu mesmo (não vou discorrer sobre as causas do vôo rasante da cultura, déficit ideológico e baixo circuito cultural), pois enquanto a cultura nacional voa baixo eu vou alçando vôo – quem viver, verá.

Birds, Fly By Yourself... Sim, perdi tudo: ego, razão, possibilidade de viajar e me transportar através do tempo – perdi tudo (até a inconsciência) – mas não parei e, se assim não parei, melhor para mim.

– Mergulhei no abismo de sol e mar que é o mundo de Mu e de mim – se tudo acabou para mim, deuses, eu não sou mais eu – sou o que restou de um um-tilado zero. Fora do esforço da razão e da intenção, me disponho a encontrar aquele ponto de acerto entre a intenção e o recado como a ex-minha de Mu, do amor e da mordente.

– Do fundo do mar e da mente surgem traços, cinzas do vôo da fênix levantando-se por altíssimas paragens, indo diretamente ao firMUmento num MUmento MUndialmente MUltiplicável pelo MUrro dos que como eu sabem de tudo.

Necessária pausa para refrescar: como já assisti "O Abismu", devo esclarecer que a ação do filme é ambientado no continente perdido de Mu, não raro confundido com a Atlântida, o famoso continente desaparecido e que Rogério Sganzerla – um visionário, sem dúvida – ousa identificar com Brasil. O filme é uma chanchada fantástica, como escrevi no "Folhetim"(n.° 65, 16/4/78). Porém, em Sganzerla tudo é humor e, assim, – se me permitem – acho que essa Atlântida à qual o filme alude não é outra senão o famoso estúdio carioca, que produziu muitas chanchadas, gênero predileto de Sganzerla, que continua seu manifesto:

– Terei uma mensagem a transmitir? Pois seja essa: em arte, o Brasil, em vez de andar, carangueja.

– Dizia Oswald d'Andrade que um povo sem cinema é como um país semeletricidade. Nossos filmes andam péssimos e os cineastas adormecidos...

– Vim, vi, venci, nada é meu mas tudo é uma coisa só e, se ainda dormem, estou bem acordado e de pé...

– Quem Gosta de Mim Sou Eu: Não me preocupei, pelo tempo em que estive sem filmar, com o fato de ser esquecido. Conto com isso, pois terei nova chance de recomeçar. Afinal, trabalho pra mim mesmo. Tenho tanto a dizer que nunca me faltará material – nem autocrítica.

Contra o Consumo de Feitiço: Para lá de péssimo/Não vi e não gostei. Filmando "O Abismu" observei o quanto é bem servido o atual momento em matéria de ignorância e boçalidade. Depois concluí necessária tamanha boçalidade, única forma de queda do boçal por ele mesmo provocada. Tudo está tão ruim que acho ótimo. Vosso cinema vai mal, ainda bem... dizem que só há pangaré na pista inexistente do cinema brasileiro (e isto vale para o internacional e quase todas as artes). Somente a tese da boçalidade, associada ao vôo rasante da cultura explica o atual momento medíocre... De qualquer forma, o páreo anda tão ruim que só tende a melhorar — pior é impossível.

Rogério Sganzerla esteve em São Paulo para apressar o lançamento comercial de seu filme, que tem distribuição da Embrafilme, mas engatilhou também uma sessão especial para os mais curiosos – deverá ser no Museu da Imagem e de Som em data a ser anunciada brevemente. Entre os atores de "O Abismu"', estão Norma Benguell (nunca tão ela mesma), José Mojica Marins (bonito, por incrível que pareça), Wilson Grey (melhor impossível) e Jorge Loredo (um Zé Bonittnho fantástico), fotografados criativamente por Renato Laclete – e diga-se de passagem que a montagem (do próprio Sganzerla) também é brilhante.

(Folha de S. Paulo, 23 de julho de 1978)

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