4.6.07

Entrevista com o mascarado

"Quando um filme tenta exprimir idéias novas tem que empregar também novas formas de linguagem, mas acontece que não há uma nova percepção e nem uma nova maneira do público em assistir aos filmes. É por esse motivo que quero me realizar mais como artesão do que como autor.Minhas preocupações são desprezíveis diante dos problemas da realidade brasileira. Desprezo meu mundo em favor de uma estratégia coletiva".

Quem diz isso é Rogério Sganzerla, um dos mais jovens e o mais queimado diretor do cinema brasileiro. No fundo, este cinema deve estar contente, porque O Bandido da Luz Vermelha ainda continua sendo discutido pela intellingentzia subdesenvolvida, e o filme vai representar o Brasil em Cannes. Repelido pelo Cinema Novo, que sabe que do ponto de vista político Rogério é um oportunista, ele está sendo usado pelo INC como contemporizador entre a reação e o progresso.

"Meu filme deverá causar um certo choque na platéia européia por ser bizarro e criativo, excitando a atenção do público.Não gosto de discutir sobre cinema velho ou novo,pois o problema é todo de criatividade e imagem".

Bem se vê a crise em que Rogério se meteu, por ter tentado criar um outro "movimento" dentro do cinema nacional. Se o Cinema Novo o tivesse aceito, Rogério estaria descendo a lenha no cinema velho, mas isso não aconteceu e Rogério está no ar, indefinido entre o novo e o velho. Sganzerla está queimado na praça, e dizem que não conseguirá fazer um terceiro filme. Mas o segundo já está ficando pronto e chama-se Ângela Carne e Osso, A Mulher de Todos.

"Ângela, ao contrário de Luz Vermelha, é um filme tranqüilo, fácil de entender. É um filme pouco falado, sem nenhuma perturbação, e deve surpreender por ser completamente diferente do meu primeiro longa metragem. Sei que um dos motivos pelo qual O Bandido não foi aceito é porque tinha muita informação e pouca redundância. Por isso vou agora inverter o esquema. Não quero fazer um filme comercial, mas um filme de bom gosto e que assim seja comercializável.

Essa entrevista fica por aqui, pois embora como crítico eu goste de Luz Vermelha, só tenho a falar mal de Rogério como pessoa, e isso não farei, porque é isso que ele espera: "falem ma, mas falem de mim", é o lema deste cineasta.


NA FOTO: Jorge Karan e Bibi Vogel numa cena de TONHO, faroeste 100% nacional dirigido por Ozualdo Candeias.


JAIRO FERREIRA

(São Paulo Shimbun, 3 de abril de 1969)

3 Comments:

At 08:40, Anonymous Anônimo said...

aaa

 
At 08:42, Anonymous Anônimo said...

que ótimo, cara, que bom que a net proporciona essa maravilha, desfrutar textos tão reveladores, ótimo, ótimo, parabéns.

 
At 08:47, Anonymous italo said...

que bom que essa informação está agora chegando via net, saindo do eixo riosampa, moro e sou teresina piauí e aqui as coisas não chegam com facilidade, esse jairo é um portal para um novo mundo, novas perspectivas, um incentivo mesmo.

 

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