1.4.07

OZUALDO CANDEIAS

As coisas por aqui andam de vento em popa. Nova fase graças a um novo - e excelente - programa de reconhecimento de caracteres. (JT)

Entrevista: Jairo Ferreira

O cinepoeta nascido em Cajubi, interior de São Paulo, concluiu as filmagens de um novo filme – Senhor Pauer, curta-metragem – no exato momento em que inaugurou a mostra/exposição intitulada Uma Rua Chamada Triunfo, 20 anos de registro do chamado Cinema Boca do Lixo. São duas décadas de memória do cinema – 17 painéis de mais de dois metros de altura, com cerca de duzentas fotos. A mostra faz parte do projeto Museu de Rua (as fotos estão impermeabilizadas: no MIS, de São Paulo, vão desde o ponto de ônibus à entrada...) da Secretaria de Estado da Cultura e deverá ser itinerante, percorrendo vários estados do País. Nesta entrevista, especial para o Cine Imaginário, o realizador – mais lúcido que nunca aos 66 anos de idade — dá uma geral no cinema brasileiro a partir de seu olhar original.

ODY FRAGA (diretor: "Macho e Fêmea", 1973) e figurante no curta-metragem "Boca Aberta" 1985 de Binho Xavier.

CI – Você está lançando a exposição Uma Rua Chamada Triumpho, onde se vê o que foram os últimos 20 anos do cinema paulista. Não seria mais importante fazer um filme de longa-metragem?
Candeias – Olha, eu tenho a impressão que as duas coisas são importantes Agora, se eu estivesse fazendo um longa seria difícil preparar a exposição. Essas fotos são resultado de quase 20 anos de Boca do Lixo, onde eu fiz oito filmes de longa-metragem. Fotografei até 76. Depois a rua começou a morrer, o cinema dela estaca morrendo... Mas, quando surgia alguma coisa, eu fotografava. É tão importante fazer um registro social, político e cultural quanto fazer um longa.

CI – Essa exposição de fotos sobre a Boca é mais completa do que as anteriores?
Candeias – A primeira foi feita quando o José Maria do Prado, que é um pesquisador de cinema independente, estava trabalhando na Secretaria de Governo, na Imprensa Oficial, e me propôs desenvolver este tipo de trabalho. Foi uma coisa menor. Essa agora é mais completa e é apresentada de uma forma mais atraente. São painéis grandes que podem ficar expostos debaixo de sol e chuva. Além do mais, tem uma quantidade maior de fotos e, se alguém tiver o trabalho de ler as legendas, vai verificar que são bastante informativas e que refletem o que foi a Boca.
Tem uma mostra de filmes que acompanha a exposição. Eles também mostram o que foi o fenômeno da Boca. São filmes marginais, pornochanchadas e pornôs. É muito oportuno essa mostra acompanhar a exposição.
A Boca do Lixo foi uma coisa única no Brasil. Aqui o capital privado investido no cinema, claro que no cinema comercial, no cinema para o público, foi e voltou, e o que é importante é que ao longo do tempo, com todas produções, criou-se um bocado de mão-de-obra... Eu acho que foi a primeira vez que isto aconteceu no País.


LUIS CASTELLINI (diretor e roteirista); JEAN GARRET(diretor: "A Ilha do Desejo", "A Força dos Sentidos"); OZUALDO CANDEIAS ("A Margem" 1967; "Aopção" 1981); e CARLOS REICHENBACH (diretor: "Lílian M" 1975, "Anjos do Arrabalde" 1986).

CI – Em sua exposição você fez uma referência à história do cinema paulista...
Candeias — Eu faço uma homenagem aos pioneiros do cinema de São Paulo, mas não falo quase nada deles. Faço uma referência para lembrar aquele negócio de que o hoje é estruturado em cima do ontem, e o amanhã pode ser estruturado em cima do hoje. É assim que funciona a memória.

CI – Você tem projeto de juntar toda esta documentação e fazer um livro?
Candeias – Eu acho que isso deve ser feito. SÓ que será um projeto bem mais amplo. Devemos juntar informação visual e não-visual. Aparentemente parece que a Boca foi uma coisa somente folclórica mas, na verdade, ela foi um fenômeno social e cultural. A maio ria das pessoas não percebiam e não percebem isso. Eu estava ali, envolvido com aquela raça toda durante 20 anos. Fiz oito filmes e trabalhei em muitos outros como iluminador, ator, produtor executivo, fotógrafo... Assim deu pra falar com todas as pessoas e ver o que elas queriam, o que elas sonhavam. Essas pessoas, na maioria pessoas desconhecidas, anônimas, que fizeram possível o fenômeno da Boca do 10 Lixo.
Essa minha exposição reúne um total de 200 fotos, e todo mundo que andava na Boca está aí. Falta gente, mas falta pouco. Apesar e quê, o processo de renovação era permanente. A maioria das pessoas ficavam poucos anos e desistiam, porque viam que pessoalmente não teriam futuro. Mas, é impressionante como todas se pareciam fisicamente, se pareciam na maneira de vestir, de pensar, de atuar. É que esse pessoal tinha uma mesma origem, vinha do mesmo segmento social.

CI – Você já fez um filme sobre a Boca...
Candeias — É, tem um filme sobre a Festa da Boca, em 76. É que eu achava que era o último momento. O ano "canto do cisne" da Boca do Lixo. A partir daí, não ia dar mesmo. Ali, ela ia adernar de vez. E foi o que aconteceu. Para as filmagens da Festa, apareceu um pessoal bom de cinema... Filmei ludo ao vivo. Não produzi este filme sozinho, fiz uma espécie de co-produção. Usei fotos antigas, filmando-as na base do "paredetop", já que não tinha o tabletop. Ficou um negócio meio doméstico.

JAIRO FERREIRA (crítico do "Cinema Marginal" e documentarista); CARLOS COIMBRA (diretor: "Armas da Vingança" 1955, "Iracema" 1979); JULIO CALASSO (diretor: "O Longo Caminho da Morte" 1972 e ator).

CI – O ultimo filme que você terminou tem a ver com essa exposição, com esse projeto de livro?
Candeias – Não. O nome do filme é Sr. Pauer. Ele tem uns 17 minutos, e é baseado num roteiro do Valêncio Xavier. A história acontece em Curitiba, durante uma greve nos transportes. Um cidadão que está à pé acha que um catador de papel tem que acolhê-lo em sua carrocinha. Ele obriga o catador a levá-lo, come a comida do pobre-coitado, mama a mamadeira do filho do cara. Quando o catador vende mercadorias, o cidadão tira quase todo dinheiro dele, e no final ainda leva a mulher... Isso acontece quando o catador de papel num certo momento tenta consertar a roda que quebrou da carrocinha e, de repente ele vê que não tem mais mulher. Ao passar numa favela, aparece um sujeito que chama ele de doido e dá um 65. Mas o catador não sabe o que fazer, fica assustado.
Esse filme foi feito num curso de cinema. Tinha mais de 40 caras juntos, e todos eles tinham que participar de alguma maneira por isso não é totalmente fiel ao conto de Valêncio. Fiz uma adaptação.

CI – O seu último longa é As Belas da Billings, está pronto há vários anos e não foi exibido. O que houve?
Candeias – Tem uma porção de maneiras para explicar. A fita, naturalmente, não agradou a Embra, nem aos exibidores, creio eu. Depois, já estava na fase em que a Embra não tinha dinheiro para investir na promoção... Eu também não tenho. Ficou por isso mesmo. Teve um momento em que a Alvorada queria lançar, mas aquele Marco Aurélio Marcondes disse que a Embrafilme tinha suas prioridades e não podia investir no lançamento do filme.

CI – Nessa situação ficou também A Opção?
Candeias – A Opção ganhou em Locarno o grande prêmio do júri. Agradou a crítica de lá. Uma grande revista como a Variety deu espaço para a fita. Deu tanto espaço para a fita que até o Calil ficou assustado. Lá havia negócios que eram fechados pelo Movimento Cineclubista internacional. Houve proposta de compra, mas tudo morreu por aí mesmo.

CI – Mas o Manelão o Caçador de Orelhas chegou a ser exibido.
Candeias – Não. Esse filme teve só uma cópia e foi lançado não sei onde. Quando aconteceu o Primeiro Festival Internacional de Cine-clubes numa cidadezinha perto de Paris, na França, por alguma razão o filme foi escolhido para representar o Brasil. Só mais tarde que eu descobri que foi porque um dos organizadores do Festival de Locarno, o Brossard, quando esteve no Brasil, foi até o Cine-clube, em Prudente, e achou que este era o filme que poderia representar o Brasil no Festival de Cine-Clubes francês. Fui saber disso quando faltavam duas semanas para acontecer o Festival, porque a Embra não tinha mandado o filme. Ela disse que a cópia estava muito ruim, e não tinha dinheiro para fazer outra. "Então se a porra da cópia está ruim, por que vocês não me devolvem ela?", disse eu. Aí, fui saber no Departamento que a cópia estava boa mas o negócio é que tinham uma só, e não queriam ficar sem nenhuma. E, lá na França estava tudo pago pra mim...
Tinham impresso tudo sobre o filme. Mas o convite oficial e toda a documentação estava na mão de um cara que segurou. É aquele negócio de puxar o tapete... Mas isso é até bom... pior se eu tivesse que andar puxando o tapete dos outros. Mas, é isso, a fita não foi e eu me fodi.
Era uma fita que todo mundo pichava... e não deram nem a vez de resposta.


RACHEL ORTEGA (Carmen Ortega – atriz: "Caçada Sangrenta" 1974, "As Rosas da estrada" 1981).

CI – Seus filmes são de autor, mas na produção você não é totalmente independente...
Candeias – O Manelão e As Bellas da Billings são produções da Embra. A Opção tem participação de 20% da Embra, mas tem também o apoio da Secretaria de Cultura do Estado de S. Paulo. Fiz o Meu Nome É... Tonho com o Manuel Augusto Pereira Sobrado, pelo MASP. O Tonho foi a primeira fita que o Augusto fez, depois de ele se desquitar do Mojica. Foi com essa fita que ele ganhou a condição de produtor. O David Cardoso como produtor atuou pela primeira vez no filme que eu fiz também, Caçada Sangrenta. Fiz com ele, em 83, A Freira e a Tortura.

CI – Você é um cineasta experiente. Atravessou épocas difíceis e taí hoje seguindo a sua linha. Como você vê o cinema brasileiro hoje?
Candeias – A gente está numa encruzilhada, aparentemente sem expectativas. Eu acho que o cara do cinema brasileiro errou de sempre se achar o bom. Ele nunca se espantou com o rádio, com o vídeo, com nada... Agora, a TV e o vídeo se preocuparam em avançar no espaço. Não sei qual é o caminho. Existe a produção estatal. Ela pode continuar servindo. Tem as co-produções estrangeiras, mas eu acho que a gente não tem condições de desenvolver este esquema, porque não temos grandes tradições nem credibilidade. E isso nem dentro nem fora do país; não adianta querer enganar. Na Europa, os países estão fazendo co-produções e disputando o mercado internacional. Essa moda é uma necessidade. Mas pra gente aqui é difícil. Nosso público não paga nem o laboratório. Botando um milhão de dólares num filme, como vamos pagar, se a gente não tem 30% do mercado interno e o mercado não absorve a nossa pequena produção? Ta todo mundo querendo lançar seus filmes; eu tenho dois filmes, a Embrafilme tem um monte de filmes mal lançados... Os exibidores dizem que "não passo" e o Concine concorda.
Veja aquela estatística falando dos cinemas que estão devendo 300 dias ao cinema brasileiro. Só uma ou duas salas estão em dia.Se o exibidor justifica que perde com o nosso cinema, é possível que ele tenha parte da razão. Mas, se eu tivesse espaço para exibir meus filmes num cinema popular, eu tenho para mim que eu poderia pelo menos pagar os insumos. Mas o exibidor não tem compromissos com o cinema brasileiro, por isso quem sempre perde é o produtor. O exibidor não arrisca nada. Somente diretores de cinema que têm espaço na imprensa conseguem alguma coisa. Mas há uma enorme cumplicidade nisto tudo; o Concine não chia, a Embrafilme, que tem 100 fitas para lançar, fica quieta, não fala nada...


CLAUDETE JOUBERT (atriz: "Sinal Verde" 1973, "A Filha do Padre", "O Cangaceiro do Diabo", "Rei da Boca" 1984).

CI – E os filmes que não são lançados não ficam velhos?
Candeias – Eu não creio que fita fique velha hoje. Isso acontecia antes do vídeo, ou mesmo da TV. Você tinha que ver filme no lançamento, depois não ia ver mais. E tinha que ver no centro da cidade. Hoje, aos 90 anos do cinema brasileiro, e aos quase 100 do cinema mundial, ao cara não importa se o filme é novo ou velho, ele quer é conhecer a história do cinema. Essa coisa do filme noir, por exemplo, o Casa Blanca todo mundo correu pra ver o que era. Então, o que tem a minha fita e as outras que estão nas prateleiras de velhas?... São novas, ninguém viu.

CI – Mas seja filme seu, do Cacá, do Jabor, do Carlão, do Mojica, qualquer filme brasileiro, quando lançado, não está se pagando. A coisa ficou igual pra lodo mundo. O cinemão e o cineminha não se pagam.
Candeias – Mas é melhor você lançar e tirar a metade ou um terço do que perder tudo, porque se você perder a metade de um filme, o exibidor só vai deixar de ganhar o dobro, ele não vai perder nada.
Eu acho que em relação ao cumprimento das leis, quem tem que dar satisfação é o Concine. O exibidor, o distribuidor têm que prestar contas, caso você bote o filme na mão dele. O Concine de repente podia dizer pelo menos porque a fita brasileira não presta. Devia orientar a nós diretores a fazer filmes como A Hora do Susto, A Hora da Corrupção, A Hora da Morte, ou como é no nosso caso, A Hora do Desespero. É a voz do Concine pra organizar nosso cinema. Chegue e diga isso, pelo menos. Mas, nada passa. Eu tenho dois filmes pra lançar, mas tem outros caras que têm três. Principalmente esses daqui de São Paulo, da Vila Madalena. A Boca não está fazendo mais nada, a não ser esses pornozinhos. Antes era pornozão. Agora são pornozinhos, ninguém procura caminhos.

CI – Mas o cinema brasileiro está fazendo bons filmes...
Candeias – O cinema brasileiro ultimamente não esta fazendo filme nenhum. A gente não pode dizer que faz cinema. Nossos diretores fazem coisas técnicas bem feitas, mas fogem dos seus temas, pessoalmente abrem mão do que gostariam de fazer. Abandonaram seus ideais.

CI – É, a criatividade está em crise...
Candeias – Eu tô achando que a criatividade do cinema de lá de fora foi voltada para toda uma pirotécnica e para toda uma tecnologia de horrores, de metafísica e de coisas cósmicas... Num certo tempo ela foi voltada para uma coisa política, cultural, para metáforas, e buscavam-se meios mais econômicos pra você tirar partido de uma estética, mas agora tudo mudou.

CI – O cinema brasileiro não tem condições de concorrer?
Candeias – Você precisa de mercado, porque tudo é muito caro. Antigamente, a criatividade era em torno de coisas que não custavam muito e eram simples. Hoje a criatividade tem que ter respaldo tecnológico e a gente não tem dinheiro. Aqui a criatividade da gente era inventar a Trilogia do Terror ou Meia Noite.

CI – A Boca do Lixo foi criativa sem ter dinheiro e agora não consegue fazer o mesmo...
Candeias – Eu tenho a impressão que se fizer não vai adiantar nada. A televisão é uma máquina de descobrir coisas. Pra cada filme tem 100 reportagens de neguinho que lá vasculhando esse mundo de todo jeito. O nosso cinema nunca chegou a mostrar a Amazônia num filme. O que fez foi no Bye Bye Brasil, onde a Amazônia está de uma maneira abstrata. Você nunca viu a cidade petrificada do Rio Grande do Sul, você nunca viu direito o que é a Chapada de Diamantina. Ela só aparece naquele filme do Orlando Senna... Então, o cinema não fez o que deveria ter feito. Hoje a televisão já arrasou com tudo isso através de novelas, minisséries e notícias. O cara que não compreender isso não pode ficar a choramingar. A TV procurou o seu caminho, descobriu e se consolidou, e você tem que respeitar esse poderio filho da puta. Você vê o Brasil inteirinho através da TV. Quando é que você ouviu falar da Chapada dos Guimarães, daquele negócio que tem lá há 400 anos em Cuiabá...?
De repente, no cinema, temos que nos voltar para o abstrato, para o essencialmente humano. Esse foi o caminho do teatro depois do surgimento do cinema. O cinema não tinha problemas com o tempo, com o espaço e o cacete. Hoje a televisão tem muito menos preocupação com isso. O teatro tem estas limitações, por isso buscou seu desenvolvimento dentro de suas limitações para chegar ao seu público, buscou harmonizar sua criatividade com os seus custos.

CI – Essa supremacia da televisão sobre o cinema qui no Brasil é demais...
Candeias – Outra vez é um problema de governo. É o governo que permite as emissoras serem produtoras também. A produção poderia ter ficado fora, assim surgiria uma estrutura muito mais sólida para o cinema. Mas nosso cinema foi sempre tão desmoralizado que nunca pensou nisto. Quando começou a TV Tupi, riram dela, nao participaram de sua história. Então ela sozinha criou seu elenco de atores e o seu corpo técnico. E a televisão hoje é que está rindo do cinema. Éramos um cinema desestruturado... E como eu disse anteriormente, o único fenômeno de cinema no Brasil onde houve investimento privado e que deu certo foi o da Boca do Lixo. A televisão teve e tem retorno. O Cinema Novo não deu retorno. A Vera Cruz não deu em nada. A Maristela enterrou quase todo o dinheiro. Se a chanchada tivesse dado certo, o Severiano Ribeiro daria continuidade.
Mas, apesar de tudo, acredito que surjam alternativas como as que existem em outros países, onde as TVs só podem produzir até 30% de sua programação. Se as nossas TVs fizessem, digamos, 40% ou 50% e deixassem o resto pra ser feito por produtores independentes, surgiria um processo de produção mais democrático. Mas não estou falando da Globotec, Manchetotec ou Bandeirantotec. As TVs não podem ser as donas da ideologia da imagem, não podem ter a hegemonia que têm.

(Cine Imaginário, número 43, junho de 1989)

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