7.7.07

Os Tentáculos do Polvo

A criticalha burocratizada torce a narina a outros media que não o cinema. Ignora que o lance é tornar-se psicopata,ou seja, aglutinar em mosaicos. Despidos de originalidade, estariam no mato sem cachorro se fosse barrada a importação das revistas de cinema. Kubrick em seu último filme vai mostrar que a vanguarda tornou-se um bem de consumo comum. Qualquer avanço será metavanguarda. Em cinema, isso significa que o telégrafo, o ideograma chinês, a rádio, a TV, os comics, a poesia concreta podem e devem cultivar relações estruturais entre si. A ais-valia será da linguagem cinematográfica. Provincianos a meio século de 22, vão gamar Crônica de Ana Magdalena Bach (breve na SAC) só porque o Cahiers badalou, sem saber que Straub teve que suar em cima das escalas bachianas pra reinventar Bach em linguagem de cinema. Metacinema não é simplesmente cinema dentro do cinema (Uma Sombra me Persegue, de Noel Black, é até "conteudista"). O que vale é o atrito criativo entre as estruturas dos medias. Daí ter sido Oswald de Andrade um grande cineasta, ele que era um antropofágico de estruturas.

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A Kodak decretou a falência da PNF. Os oficiais de justiça, num dia da semana passada, evacuaram os funcionários da firma, desceram as portas de aço e grudaram na fechadura os papéis da infância. Isso não devia ser surpresa. Mas foi, entre debilóides que não sacam estruturas. A platéia e a criticalha sempre aplaudem na hora errada. O fechamento pelo INC das 28 salas num 25 de janeiro era medida de impacto demagógica. No fundo, não há diferença entre INC, exibidores e Kodak.são tentáculos do polvo estrangulando lentamente o produtor brasileiro. E como proliferam os diretores galináceos, o que ganharam foi uma casca de ovo choco, aliás merecido.

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Uma minicrítica de Corrida em Busca do Amor que ficou pronto antes da falência. O melhor filme de Carlão Reichenbach, fácil. Outra evidência de que não há diferença qualitativa entre o dito cinema pessoal e o falado cinema de encomenda. A equipe dança conforme o disco do produtor, que no caso era fanhoso. E suprindo lacunas nessa equipe indigente,fui assistente de direção, co-dialoguista, co-roteirista,continuidade e still e até ator, embora contratado como fotógrafo de cena. Mas garanto que foi a última fria. Inútil esforçar-se quando os produtores são tentáculos do polvo e não sustentáculos de um possível cinema do povo. Nesse filme tudo começou errado e se terminou bem foi graças à montagem de Silvio Renoldi e à tremenda honestidade profissional do diretor. Honestidade aliás usada como know how básico da produção. Carlão dublou paca e fez a música com seus próprios discos (também fanhosos). Salvou a cara? De qualquer forma, não será idiota em repetir a experiência. Resultou algumas gags engraçadas numa narrativa forçadamente anti-linear, mais por culpa da produtora. Se tem algum lance criativo é de responsabilidade exclusiva do diretor e seus amigos assistentes. O filme vai estrear logo. Os produtores vão abrir outra firma que outra Kodak fechará e continuarão explorando outras equipes. De minha parte, desejaria que o negativo se incendiasse acidentalmente.

JAIRO FERREIRA

(São Paulo Shimbun, 10 de fevereiro de 1972)

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