4.4.07

Nem tudo é paródia


Jairo Ferreira

Cinema de invenção é também cinema de memória. Belo Horizonte, 1980: I Encontro Nacional do Cinema Independente (Marcos Demôro do jornal CINEIMAGINÁRIO me diz que "o II não escapa de 87"): filmo "O Experimental de Souza", bloco do longa "O Insigne Ficante", Zé Sette instigando Elyseu Visconti Caval-leiro sobre "It's All True": "Meu amigo, fizeram uma mandinga para expulsar Orson Welles do Brasil, agora é preciso fazer outra mandinga pra trazer ele de volta, o Getúlio (Vargas é também Mike, Charlton Heston em "A Marca da Maldade"/1957, já um exorcismo de Welles e excelente associação crítica no filme-documento de Rogério Sganzerla) expulsou ele daqui, eis a verdade".

Nem verdade nem mentira: se houve mandinga é questão de muita pinga. Welles nunca teria se interessado em retornar, não se retorna a uma bad trip. O gênio sabia onde estavam os negativod, isso consta da cartela final de "Nem Tudo é Verdade" que, entre outros méritos, teria rompido a mandinga de que fala Elyseu. Sganzerla teria procedido a uma genial desvuduzação, reabrindo os campos da invenção de estirpe wellesiana entre nós pioneiramente na corrida mundial a esse mistério do 3º Mundo ao qual a diplomacia brasileira não deu força por ser fraca. "Mais l'experimentation n'a pas de vertu mystique en elle-même. Les expériences des savants ne sont pas des excursions au hasard dans l'inconnu" (dans The American Magazine, nov/1938, Cahiers Du Cinéma, Welles/1982). §

Entre nós alguns sganzerlinos se assustaram com a freqüência do filme "Nem Tudo é Paródia" (Autor: Richard Wilson, grande amigo de Welles): 795 espectadores renitentes na sala Carmemiranda do Belas Artes, "mas gostaríamos que o filme estivesse em cartaz na Rondônia também", disse Rogério no programa de TV da Marília Gabriela, que não ficou nada puta quando Sganzerla a chamou de "Mariana"... Não iremos nessa, mas é sempre salutar colocar os pingos nos is após a nomeação dos bois...

Freqüência de qualidade significa para o experimental em processo muito mais que freqüência de quantidade: "Brás Cubas" de Julinho Bressane esteve no outdoor do Belas Artes no mesmo período (outubro) e a Embrafilme registrou 1.463 espectadores na sala Carmiranda (Paulo Emílio assim grafou, uma boa, pois poucos manjam de assonâncias e assim vamos fazendo a língua brasílica que o Aurelião terá que assumir) e outros 2.684 na sala Mário de Andrade. Total interbressânico: 4.148 espectadores. Saldo animador no momento em que meu livro "Cinema de Invenção", onde Sganzerla & Bressane estão par-a-par com a invenção, esgotou os 2.000 exemplares da primeira edição. A segunda edição vem aí.

Assisti a "Nem Tudo e Verdade" (paródia é errância) na sessão das 6 no dia da estréia. Por acaso Carlão Reichenbach saía. Todo acaso é objetivo? Nem todo. Aí valeu a sintonia. Gostei no mesmo tom em que Carlão gostou, mas a sina de cronista é ir além. Vou.

Não encontrei obra-prima: achei "Nem Tudo é Verdade" primo-irmão do "Bandido da Luz Vermelha". Aliás "chef-d'ouvre" não se concebe, torna-se no tempo da tradição: clássico e o que se mantém novo. Uma primeira visão não basta na avaliação de a quantos quilates por segundo anda o maior gênio de nosso cinema (ex-tricontlnental), a sumidade RS.

Reencontro fantástico. Saio da Dinafllme e dou de cara com Sganzerla, ao lado Ninho de Moraes ("Ondas"/86, belo curta de invenção). Clima de constrangimento quebrado por um Rogério simpático e afetuoso que me indaga: "E seu livro, Jairo, está indo muito bem, eu soube". Gentilezas na descida do elevador em que resumi um sonho meu: "Sonhei que estava em conflito com você, que você queria me processar por não ter gostado de seus curtas-metragens "Noel por Noel" e "Brasil", mas acontece que adorei "Nem Tudo é Verdade". Rogério ficou pasmo.

Pound nos ensinou, entre muitas outras coisas, a separarmos o autor da obra. Tudo bem. Mas hoje o lance é a continuidade da amizade: relação transdialética da crítica dentro da produção em processo. "Nem Tudo é Verdade" nos mostra Rogério Sganzerla como ele é, polêmico, visionário, debochado e reflexivo sobre o que lhe interessa na antiestética da ética de outra ordem, outra didática sempre (ou não?) eclética...

O filme é de invenção ou experimentação que, no caso, reabre os horizontes wellesianos a nivel intergalático. Reaproveitamento delirante de uma documentação por si só explosiva, "Nem Tudo é Verdade" reatesta seu talento de outra estética do futuro audiovisual. No Brasil ou não. Montagem desatomizante, como queremos. Mixagem da banda sonora no melhor nível de prazer. Reciclagem do escracho. Belíssima fotografia de muitos rumos à invenção coletiva do cinemanônimo. Cinemanômade.

§ A experimentação não tem a virtude mistica em si mesma. As experiências dos sábios não passam de incursões no acaso em torno do desconhecido. Tradução JF

(Jornal Imagemovimento, número 2, dezembro de 1986)

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